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O arquivo sempre esteve aberto. Agora é legível.

Portugal pôs os seus arquivos antigos online. Num verão, a IA ajudou-me a lê-los até 1666. O que isso muda para o património.

31 500 dólares. É o que teria custado a leitura por trás deste artigo, a preços de tabela da API: pelo menos 25 mil milhões de tokens. Paguei uma subscrição mensal.

Em agosto fui de férias com um único documento: o assento de nascimento do meu avô, n.º 418 de 1926, no registo civil de Estremoz. Onze semanas depois, consigo abrir um batismo escrito a 10 de agosto de 1666 e ler os nomes de pessoas de quem descendo.

Não fui a nenhum arquivo. Não aprendi paleografia. Quase tudo foi feito a partir de um telemóvel.

Arquivos abertos, letra fechada

Os arquivos portugueses são extraordinários, e pouca gente o sabe. Os padres registaram batismos, casamentos e óbitos a partir do século XVI. Os notários guardaram as suas escrituras. Os juízos dos órfãos inventariaram os bens dos mortos que deixavam herdeiros. O exército mantinha uma folha sobre cada soldado, até à cor dos olhos. Os arquivos distritais e o arquivo nacional fotografaram uma enorme parte de tudo isto e puseram-no online, de consulta gratuita.

As imagens estão lá. O que faltava era uma forma de as ler em grande escala. Um batismo de 1690 é a fotografia de um manuscrito, com abreviaturas, manchas de água e uma letra que muda a cada novo padre.

O que as páginas diziam

Esta é a parte que parece uma viagem no tempo. Não são nomes e datas, são divisões, rostos e silêncios.

Os números

A stack, para os nerds

O Claude Code correu num contentor Docker num pequeno VPS, dentro de uma sessão tmux a que eu acedia por SSH a partir do telemóvel. Sem IDE e sem notebook: um terminal, um repositório git e muito Markdown.

Cadeia de processamento: telemóvel por SSH e tmux, um contentor a correr o Claude Code com até quatro subagentes, a descarregar da API do digitarq, do FamilySearch e do GERMIL, a ler com visão e margens recortadas, um segundo modelo e um humano a verificar as palavras em disputa, um GEDCOM em que cada facto cita a sua fonte, e um site estático no Cloudflare Pages
Um livro de batismos de Alter do Chão de 1899 com as duas colunas de margem assinaladas e, por baixo, as margens de oito páginas recortadas e lado a lado: os assentos 30 a 36, com os nomes Leonel, Marianna, Gertrudes, António, Francisco, Joaquim e Luiz

Uma regra segurou tudo. Cada facto da árvore cita a sua fonte, e a maioria aponta para uma imagem de página que se pode abrir. Os restantes dizem em que se apoiam: uma descrição de catálogo, uma estimativa ou o testemunho da família.

Porque é que o segundo modelo importa, e onde fica o seu limite

Num par de batismos, de 1875 e 1878, os dois modelos concordaram em dois nomes e discordaram em outros dois. A concordância é confiança barata. As discordâncias é que foram úteis: marcaram as palavras exatas a que era preciso voltar. Em ambas, o segundo modelo estava errado. E a própria conclusão do Claude sobre uma delas, assente numa escritura de 1916, revelou-se ao contrário: um terceiro batismo, de 1883, mostrou que o apelido pertencia ao marido, não à mulher.

Vale a pena ter um segundo leitor. Não é um oráculo. O árbitro é sempre outro documento.

Os arquivos têm as suas próprias armadilhas, e um modelo sozinho cai nelas. Em Barbacena, em 1747, há dois homens chamados Manoel Gomes, ambos casados com uma Isabel Lopes, a três aberturas de distância no mesmo livro. Cruzar só pelos nomes dá o homem errado. O batismo de uma irmã mais nova, com os avós nomeados, decidiu qual deles era o nosso.

O que isto torna possível

A minha família é um caso de teste, e o método tem limites: alguns livros não têm índice na margem, ou têm um que engana, e têm de ser lidos página a página. Mas os arquivos já estão online, e as mesmas ferramentas podem ser apontadas a outras paróquias e localidades.

O que mudou

Os arquivos foram abertos há anos. O estrangulamento era a leitura, e o seu custo caiu a pique: as imagens são de consulta gratuita, e a leitura custou-me uma subscrição e os meus serões. O que fica para o humano é a parte que sempre foi a mais valiosa: confirmar identidades, resolver contradições e dizer com clareza o que não se sabe.

Se trabalha em património, arquivos ou dados abertos em Portugal, gostava de trocar impressões. A árvore, os documentos e a música estão em family.aiteklabs.com.

Imagens de arquivo: Arquivo Distrital de Évora e Arquivo Distrital de Portalegre (DGLAB).

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